quinta-feira, 4 de junho de 2009

Outra novela


Se há projeto importante para mim, é este da escritura de mais uma novela. Estou entre continuar Anantha ou rumar para outra história, a partir de diversos rascunhos.

O fato é que a vida não me tem permitido saborear a doce labuta do escrever.

Em breve - no tempo de Deus, diga-se! - retornarei.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Só depois do Carnaval


Como todo bom brasileiro, o novelista vai esperar o Carnaval passar. O primeiro capítulo da nova Anantha sairá semana que vem. Até lá.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Lila lilás


(Minha flor, minha descoberta, meu mundo, minha Anantha, minha Lila. Sou como um guri. O guri que eu era, e que vivia a perambular pelos fundos da sala-de-aula, enquanto a Lila saltitava lá fora. E era um bem para mim o som, que varava a parede, dos sapatinhos amarelinhos dela. Eu a amava muito — para mim, amar era ver a garota sorrindo com uma fitinha nos cabelos soltos. Eu gostava dos cabelos soltos dela. E, presos, eu só via a fitinha e os olhos. Os dela eram negros. Nigérrimos. Sobretudo eu circulava, tímido, e não esbarrava nas cadeiras — porquanto, por vezes parecia tonto, perdido no descobrir o mundo. Estimulado pelo instante que achava ser só meu, invadia-me certa onda de não sei que espécie de lirismo — era gostoso aquele sentimento: e era doce a bile que a poesia que eu não sabia fazia. Mas a sirene tocava. Era um iooooooooóóóóóóóóóóónnnnn longo, ensurdecedor e molhado — lá pro fim ficavam os filetes nas orelhas da gente. Estivesse você onde estivesse, era arrancado de seu mergulho, qualquer que fosse seu mergulho, num papo, num silêncio, numa partida de futebol de salão na quadra cheia de gramíneas pois chovia e o céu nublado escondia o sol as nuvens pousavam sobre a serra azul acima de nossos cílios coloridos, ou mesmo se você estivesse apenas cantando baixinho para sua Lila lilás, é, a sirene te despertava, te acordava, te ia afogando num oceanozinho de melancolia e num marzão de timidez. Sim, eu era um guri. Calça azul-marinho. Camisa branca teimosamente de linho. Botões lindos e alvos. Quixutes da cor daquelas avencas da Cecília Meireles. Um guri. Ela usava fitinhas nos cabelos soltos. E era solta em minha prisão.)[6]

[6] Este trecho fazia parte de miniconto originalmente publicado com o título Ela usava fitinhas nos cabelos soltos, na revista literária Cobra n. 6, de Porto Alegre, em 1986.

sábado, 26 de janeiro de 2008

A Novela X?


Novela agora é A Novela X. Por quê? Coisas da WWW. Não vou explicar, não. Há o Corredor X dos quadrinhos, há outros X, por aí, como os Men, ou na Matemática, ou em prolegômenos filosóficos.

Sem mais tergiversar. Novela, agora, é A Novela X, e ponto final.

domingo, 23 de dezembro de 2007

Saudade dorida*



" — Vânia — disse ela. — Olha, Vânia, foi tudo um sonho!
— O que é que foi um sonho? — perguntei-lhe.
— Tudo, tudo — respondeu ela. — Tudo quanto se passou este ano, Vânia. Por que teria eu destruído a tua felicidade?
E eu li no seu olhar: 'Podíamos ter vivido sempre felizes juntos!'." (Fiódor M. Dostoievski, in Humilhados e Ofendidos.)

Escrevo quando o sol desaparece, ou logo após surgir, anunciando ao mundo novos pavores e delírios. Nestas horas, esqueço a saudade dorida, e, revivendo o amor, vivo.

Cabelo e barba, contudo, crescem assustadoramente. As noites passam brancas, povoadas de torrencial insônia e entrecortado sono. Penso, certas horas, que morri — notadamente quando Anantha evoca-me a imagem do rapaz com a flauta acompanhando os versos finais do poema da menina sardenta. Sonhos entrecortados. Repetidos. Um, em especial, surge, desenovela-se, e, indo-se e retornando nova vez, embaralha-se, confundindo-me. Geralmente é elaborado em noites chuvosas, de escassas estrelas, noites infestadas de ruídos, grilos e cães que uivam, lamuriosos. Luz opaca, amarela, na rua; sombras dos edifícios vermelhos. Gatos enfiados em touceiras de dálias. Som de sirenes num crescendo. Dois ou três veículos velozes, rumando para a cadeia, toda noite, carregando homens que perdem o sabor da chuva, o odor dos gravetos molhados e a ternura das folhas já não mais secas.

*trecho do VII capítulo da novela Anantha

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

No lago


O segundo longo sonho aconteceu na terceira noite.

Estávamos no pomar, no meio da tarde. O sol nos convidou para um banho na cachoeira. Acima das gramíneas verdes, os pés de Anantha levitavam! O gingado dela, a cintura fina coreografando danças que só eu via! Caminhava com extraordinária leveza. Ao chegarmos, meu contentamento era largo. Observei-a livrar-se da diminuta veste — que quase nada escondia. Pôs um biquíni azul cujos laços pareciam flutuar, decerto embalados pelo frescor da pele que afagavam; prendeu os longos cabelos, espreguiçou-se, levantando os braços bem alto como se os apontasse para o sol; e içou, com inocência, as nádegas. Num átimo, pegou-me pela mão e puxou-me para a água. Que felicidade! Nadamos toda a extensão do pequeno lago, indo e vindo, com o sol e o canto de anuns varando a quietude do tempo; araras e bem-te-vis inventavam estrepolias, alheios ao nado vigoroso dos corpos que, numa noite carregada de forças invisíveis, haveriam de conhecer o amor que perpassa as eras, mora em castelos medievais e habita os altos cumes das serras baianas: o amor que produz faíscas, destrói florestas e vegetações floridas, o amor que nasce nas estrelas e sabe dos mapas das constelações, do caminho para os antiuniversos e do segredo da pedra filosofal. Atrás dela todo o tempo, como um peixe-rei no encalço da sereia — escolhida entre setecentas outras, diante da multifária reunião de atributos da preferida —, eu estava pronto para o amor sem-fim. Quando chegamos numa ilhota, que, na verdade, era uma pedra enorme no meio do pequeno lago formado pela queda d’água da cachoeira, ela parou, exausta. Nos derradeiros ofegos, já aliviada das incomensuráveis braçadas, sondava, serena, ora o arco-íris, ora as gotas em aspersão, ora...

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Alpendre secular


Por fim, festas religiosas e folclóricas, como o São-João, Dia dos Santos-Reis, Noite do Nazário, quando mascarados saem às ruas, na Quarta-feira de Cinzas, aos berros, pregando peças e lançando ovos e toda sorte de imundícies em direção a desavisados, que, inutilmente, correm para suas casas, fugindo da algazarra, mas ansiosos da notícia: na porta de qual viúva enterraram Nazário? Os olhos de Anantha brilhavam, com tantas lembranças, evocadas por meio de sinestésico e belo discurso.

A música retinia nos caibros do alpendre secular. À meia-noite, quando já tínhamos tomado garrafa e meia de bom Lambrusco, não pensei duas vezes, Vamos pra Villas?

Como ri Duras...


Ela quis caminhar um pouco pelo calçadão. O sol: pedaços de beiços de fogo. Além, no rumo d’África, Sírius principiava a lumiar os céus. Caminhávamos devagar, e dos pormenores me lembraria por muito tempo. Eu carregava numa mão a mochila de Anantha e na outra segurava com preocupação majestosa a máquina fotográfica — haveria de gravá-la em mais de setenta e duas poses, rindo, rindo e rindo, como riem as gueixas, como riem as meninas que cantam nos trios elétricos, no Carnaval, na praça Castro Alves, como ri Ivete, como ri Luana Piovani, como ri Fernanda Torres, como ri Marguerite Duras, n’O Amante. De vez em quando, meu olhar caía-lhe sobre os olhos azuis. Ou sobre os lábios, carnosos, bonitos. O caminhar, os cabelos bailando, a voz doce, a leveza de Anantha, enfim, animava-me, enquanto andávamos e ela falava do projeto Tamar.

domingo, 16 de dezembro de 2007

Entrega sem laivo de pecado*



"É preciso que eu não esqueça, pensei, que fui feliz, que estou sendo feliz mais do que se pode ser. Mas esqueci, sempre esqueci". Clarice Lispector, in Perto do Coração Selvagem.

Caminhamos uns duzentos metros, os pés metidos n’água, afundando na areia sonâmbula — as folhagens escuras dos coqueiros mais lembravam os recantos árabes onde Ben Hur descansava da longa jornada —, até chegarmos. Era um lugar sossegado, bonito — a areia tão branca que os fiapos da lua cheia, refletindo nos grãos alvos, cegavam-nos os olhos. Baixa-mar; alguns pássaros brincavam, na contraluz das ondas molhadas pela maciez do luar marinho.

Convidei-a, cingindo-a, rodeando-a, felino, expectante, para o abraço, e o beijo, e a queda no lençol de grãos molhados. O amor, então, se fez, terno e profundo como nunca.

Amparado pelo deleite que só o gozo pleno oferece, refizemo-nos, mergulhando nas águas mansas do mar. Novo abraço, novo ardente beijo, mais outro gemido fino e líquido de Anantha, uma vez mais visitada por mim. Certamente um golfinho inopinado, que acaso por aquelas águas se aventurasse, perder-se-ia na cálida fragrância exalada pelo botão frenético dela, em chamas. As mechas leoninas de Anantha, molhadas, caíam-lhe sobre os seios morenos. Foi quando, como um tremor de terra, explodi. Ela, mulher agora, eva, pomba, chegou aos prantos — feliz pela partilha, pela entrega sem laivo de pecado.

De modo que, com o amor temperado nas águas, e impulsionada pelas lamentações e delírios alucinantes dos amantes, foi-se esvaindo, altiva e clara como nunca, a noite. Uns fogos incandesceram os longes daquele pedaço lúdico da Baía de Todos os Santos. Até o alvor, assim permanecemos, ora na água, ora na areia...

* excerto do capítulo VI de Anantha

sábado, 15 de dezembro de 2007

Republicação


A Novela X republicará Anantha, paralelamente à escrita do folhetim novo, prometido para janeiro de 2008.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Mais um pouco *


Já estava na fazenda há três dias, com Anantha, ela em meus pensamentos ela em minha fala ela nos poros eriçados de minha pele morena pensava nela a cada instante o sorriso carregado de enigmas o mistério de sua presença e as variações sistólicas que provocava em meu peito era só Anantha em meus olhos investigava o pôr-do-sol e Anantha eu via apreciava flores e eis Anantha volvia as íris para as nuvens cravava-as aqui e acolá e mais além ainda mirava o verde absurdo das mangas onde os bois teriam engorda nada nada além dela tão sublime quanto travessa e rindo rindo e quando a via pela sala na varanda ou no curral vendo a ordenança das vacas ou até mesmo montando os cavalos do tio eu me lembrava dos minutos em que nos acariciamos ternamente na ilha do rio das Ondas no primeiro dia a ternura da boa lembrança rutilava-me o olhar eu era todo esperança! Mas agora evitava-me embora seus olhos teimassem em fitar-me quando estávamos à mesa na serena hora do almoço ou do jantar ou quando nos encontrávamos eventualmente ao percorrer a geografia da casa? Então havia interesse sim e eu saberia mais cedo ou mais tarde atraí-la para mim e o que eu sentia não era mais só um desejo intenso como antes eu já estava tomado pelos cabelos pêlos e cheiros de Anantha pois para mim ela era já mulher tinha luz própria explorava sozinha a calmaria e a zoada alheias (única perfeita). Sonhava com ela e nesses sonhos tínhamos encontros em Brasília íamos ao Cine Academia ao Teatro Dulcina tomávamos sorvete brincávamos no Parque da Cidade corríamos como crianças era quando eu perdia na relva os gestos contidos a frieza do trabalho burocrático no Ministério da Justiça só éramos agora ver os joões-de-barro serelepes na chuva nova eita! cheirinho bom de chuva diríamos e tome sorriso e tome dentes alvos de Anantha e o perfume de sua pele o hálito alvo dos dentes firmes e o olhar penetrante meigo forte perigoso! Oh eu não entendia como Machado pôde criar na cabeça do Bentinho uma Capitu tão dissimulada a ponto de os cabelos dela ele de costas o apunhalarem ela querendo as mãos mas Machado não nos diz da vontade dela e Bentinho pouco depois ganha o beijo tão esperado por nós que ávidos avançávamos cada linha cada parágrafo cada folha conhecendo a história do agregado José Dias mas em verdade ansiosos pelo encontro de Bentinho com Capitu isto Anantha me disse que sentiu: a mágica do ósculo a poesia do doce encontro de duas já não mais crianças diante do espelho velho que a tudo testemunhou como uma lente que houvesse filmado a inocência dos dois. Nisso também eu e Anantha tínhamos algo em comum! Também disputávamos quem comia mais batatas fritas no Bar da Rua 8 ou no Xilós (é palavra alemã aportuguesada, Anantha; permita-me, se é que você haverá de ler isto que escrevo) na 509 norte conversávamos sobre tudo Greenpeace China Marte a campanha presidencial que se avizinhava os rebeldes de Chiapas e Hezbollah eu era a um tempo felicidade e a outro desolação...

* inicialmente, não havia pontuação alguma. Manteve-se a ausência, em alguns trechos.

Um pouco de Anantha *


Recordei-me, nem sei por que, e contei para ela — precisava testá-la, conhecer dela a madureza, o caráter — a história de um amigo de infância, o Edson. Era filho de um casal de pretos pobres. O pai, pedreiro; a mãe, lavadeira de roupas. Moravam a poucas casas da nossa, lá em Barreiras. Adorava ler gibis. Três anos mais velho que eu, mas o desenvolvimento intelectual retardara. Uma vez, estávamos nas estripulias no fundo do quintal. Cavávamos um buraco para tentar pular do balanço dentro dele, em cima de almofadas que, estrategicamente enfiadas na garganta da cavidade, amortecer-nos-ia a queda. Acreditávamos piamente em nossa engenharia, a abertura alcançaria mais de três metros. O balanço amarrado no pescoço da goiabeira envergada (estranha árvore, de frutos vermelhos povoados de bichos alvos, e torta: fora palco de meus testes no aprender a arte de trepar goiabeiras, coqueiros, frondosos pés de juá e mesmo arredios laranjais). Contudo, demoramos cerca de duas longas horas, debaixo do estúpido sol baiano, no revolver com a enxada enferrujada meio metro da terra vermelha. Suado, chamei-o para almoçar, pois minha avó gritara lá do alpendre que a comida esfriava na mesa. Ele fez que não com a cabeça, envergonhado. Insisti. Disse que me esperaria, que eu fosse. Pois fui, com a fome reluzente e gritante dos dez anos; almocei, refestelei-me na cadeira de tiras plásticas e lá fiquei lendo um Recruta Zero emprestado. Quando dei por mim, duas horas e um Fantasma e um Mandrake depois, corri para o quintal: lá estava o Edson, de cócoras, a me esperar, quieto, vigiando o buraco.

Mais sustos nos pregaria o Edson, porém. (Deixei para contar-lhe outra hora, Anantha, acerca do fim trágico que teve meu amigo, e as peripécias por que passou, somadas à terrível sexta-feira da paixão, quando o pai tomou-o para cristo, rigorosamente falando, e não teve centelha que fosse de paciência com o filho — tentou, antes, extraindo-lhe gotas de sangue da pele negra, com as afiadas pontas do arame com que lhe amarrara os braços e os tornozelos, dar-lhe algo de razão. impossível, vez que meu amigo sofria de invulgar deficiência mental, que o privara de viver neste mundo como todos os supostos normais que somos.) Emocionado, acelerei o carro e troquei o CD, a fim de encurtar a conversa, que prometia alongar e, talvez, chatear Anantha.

* novela publicada em 2004, em sete capítulos, na revista eletrônica PD-Literatura.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Segunda novela*



Em janeiro, primeiro capítulo da segunda novela com Anantha.

Anantha foi um folhetim eletrônico publicado originalmente na revista eletrônica PD-Literatura, da qual fui colunista. Durante sete meses, mensalmente, postava novo capítulo. Mas Anantha (a personagem, por óbvio) teve epílogo trágico. Explica-se. Por falta de tempo para elaborar os episódios, optei por dar um fim policial à história. Na época, preparava-me para concurso público pesado. Tanto em A Novela X, quanto em Quase hai, publicaremos trechos do folhetim-novela Anantha, antes do primeiro capítulo da nova novela da série.


* Nota. A imagem deste post foi capturada da web. É meramente ilustrativa.